domingo, 4 de junho de 2017

Storytime: "Eu acho que ela gosta de mim"

Esse é um daqueles posts pessoais de eu contando historias antigas minhas...
Bem, quando eu era pequena... Não me pergunte a idade, eu sou péssima em datas, mas foi algo entre a 3 a 6 serie, porque eu sei em que escola foi, mas não a data em si... Sou muito ruim nisso, não sei nem dizer minha idade na primeira tentativa... Serio mesmo...
Bem, havia uma menina na sala aonde eu estudava, que vivia pegando no meu pé, eu não sabia explicar o porque, mas ela passava parte do dia reparando em mim, em detalhes, e então soltando olhares duros ou criticas amargas.

Eu me lembro que até coisas pequenas ela amargava, se caso eu andava com os pés pesados e logo fazia barulho, ela reclamava, dizendo que era falta de educação, me lembro de fazer um desenho com corações com rostos zangados (porque fazia parte do tema que eu estava desenhando), e ela disparou para cima de mim, disse que isso chamava energia negativa, me fez apagar e refazer o desenho... até se minha voz mudava de tom, falar mais baixo ou auto, a menina precisava dizer algo, precisava me corrigir. Lembro da cara dela toda vez que eu ia abrir a boca para falar algo, ela começava a tremer a cabeça, expressando um "não" sutil, e então olhando para mim de um jeito torto, meio que dizendo de forma subliminar "pensa na merda que vai dizer antes de falar!"







Não, eu acho que não era eu o problema em si... Okey que eu sempre fui “meia” petulante, mas naquela época eu era muito quieta, mal falava, tanto que ela vinha para cima de mim reclamar do silencio que eu estava fazendo, que isso era errado. Não era só eu a única vítima dos sermões dela, eu acho que ela passava 80% das vezes reclamando sobre alguma coisa, mas a maior parte era sobre mim.
Chegava ao ponto de ela atravessar a sala ou o pátio para vir até mim, ver o que eu estava fazendo e reclamar. Eu ficava meio quieta e passada, por não entender o que estava havendo, e ficar numa mistura de dúvida e constrangimento.
Então teve uma época que ela ficou insuportável, o tempo todo ela estava por perto, ainda mais quando eu passei a passar o tempo com o mesmo círculo de amigas dela, ela estava lá, chegava a virar 360 graus aquele pescoço fino só para dizer que o ar que estava saindo do meu pulmão estava a incomodando...
Eu não entendia, e passei a acreditar que ela não gostava de mim, e então eu me afastei dela e das outras meninas, e também porque na época aconteceu uma outra coisa...
Me lembro dela, ela era uma das meninas mais bonitas da sala, o cabelo dela era perfeitamente penteado, por isso eu achava que ela era rica (sim, eu media o poder econômico de alguém pelo cabelo, o meu era assanhado...), ela tinha um cabelo crespo em tranças com mil presilhas coloridas, era luxo na época, ela quase parecia uma Barbie, ela tinha bolsa e cadernos de marcas famosas na época, sabe, aqueles cadernos que vem com capa de algum personagem feminino e por dentro as folhas são decoradas? Sem falar que foi uma das primeiras meninas a usar maquiagem na época, era bem pouco, mas as cores se destacavam na pele negra dela. Estão eu admirava toda essa coisa de ser decorada dos pés à cabeça e achava interessante, até o jeito extrovertido dela, eram coisas que eu não podia ter, eu era pobre e tímida, e ela ao contrario... Mas a pessoa que eu achava que tinha coisas legais me fazia me sentir mal... Isso era complicado... Sentimentos que se chocavam...
...

Um belo dia aconteceu algo que marcou ela na minha memória para sempre, eu me lembro desses dias perfeitamente, como um curta metragem, em cada detalhe.
Na escola eles faziam o “dia do nome”, algo do tipo, todo dia um nome era escolhido, que era colocado na lousa, todos os alunos copiavam, junto com a data e uma frase bíblica... A pessoa ainda tinha um dia especial ajudando a professora (n época era super emocionante apagar a lousa, mais tarde é emocionante jogar pó de giz em quem tem asma)... Esse era meu dia, e era costume escrever em cores vermelho e azul, vermelho para as vogais, e azul para as consolantes... Mas eu não podia... Eu não tinha as cores vermelho e azul, eu mal tinha lápis no meu estojo, lembro de usar cor de pele e vinho, porque só havia isso praticamente...
E aí apareceu ela, essa menina veio até minha mesa, olhou para eu copiando o nome em meu caderno, e me questionou o uso das cores, eu disse que apenas tinha essas, e ela me perguntou aonde estão as outras, eu disse que perdi, e não poderia comprar mais... Ela olhou para mim e meu estojo com um olhar de arrogância e desprezo... e saiu sem falar mais nada. Eu fiquei constrangida e confusa, como sempre.

...
Na volta em casa, eu tentei mostrar para meus pais que eu fui o nome do dia, mas minha casa estava em caos, meus pais estavam brigados, não consegui falar com minha mãe, e meu pai estava no quarto, sentando na cama, com cara de tristeza e decepção olhando para o nada, eu mostrei meu caderno e tentei explicar, mas ele estava preocupado com seus problemas e não me deu muita bola, e isso ajudou a deixar meu dia mais bosta, e passei o resto do dia em silencio na tristeza, me sentindo pequena e inútil.

...
Eu não gostava de sentir que não tinha o mesmo que as outras meninas, mas era impossível, nas outras casas tudo parecia organizado e feliz, elas tinham coisas coloridas, como cadernos, roupas e lápis... Rosa, flores e borboletas... Eu não tinha essas coisas, tudo era monótono e cinza na minha vida, e isso fazia me sentir destacada de um jeito ruim, e era desconfortável quando eu percebia isso... O olhar de desprezo daquela menina, e eu não poder curtir o que eu via as outras crianças fazendo com seus pais... Aquilo me machucou... E eu não podia fazer nada em relação aquilo...
...
E aí aconteceu um negócio que foi uma grande surpresa.
...
Um belo dia essa mesma menina vem até mim, com um pacote embrulhando, todo bonitinho... Presente para quem... Pra mim? Eu não entendi, ela apenas estendeu o pacote e me entregou, o pacote era a coisa mais fofa que eu tinha visto, eu abri sem muita delicadeza e dentro tinha uma caixa de lápis de cor. Ela esperou eu falar alguma coisa, me olhando com aqueles olhos redondos negros, mas eu fiquei sem reação, e aí ela quebrou o silencio dizendo que pediu que a mãe dela comprasse por ela, e a mãe dela havia me dado, eu poderia agradecer a ela, eu não disse nada, ela fez uma cara brava...
Os lápis eram os lápis mais bonitos que eu já havia visto pessoalmente, era uma caixa de 24 cores, nunca tinha visto algo do tipo tão de perto... 24 cores! Eles eram decorados, com desenhos de gatinho no corpo do lápis, em cores vivas e brilhantes...
Mas ela não me odiava? Por que... Por que tinha feito isso? Não era nenhuma data especial, aniversario ou comemoração, e ela aparece com isso do nada...
...
Demorei pra cacete a entender o que aconteceu...
Mano, era o jeitão dela, ela pega no pé de todo mundo, acho que gostou de mim, e começou a fazer mais ainda comigo... Algumas pessoas gostam assim, se intrometendo e tentando te consertar para te tornar algo melhor, na visão da pessoa... Talvez ela tenha sido criada assim, por isso ela parecia tão perfeita, porque ela aprendeu a cuidar das coisas de uma forma mais ativa e incisiva...
Aquele presente... Não durou muito tempo, e isso que mostra a diferença entre eu e ela na época, eu não era cuidadosa e nem organizada, porque aprendi a ser assim, os lápis foram roubados, pouco a pouco, até que meu estojo voltou a ter poucas cores. Me lembro dela aparecendo algumas vezes, me perguntando sobre isso, "aonde estão as cores", me cobrando cuidado diretos pelo presente, e eu não sabia responder, e então seu rosto demostrando chateação e decepção... Foi ai que eu reparei nas coisas dela mais de perto, não apenas daquela forma, de longe, aonde tudo parecia legal e perfeito... Ela tinha um cuidado enorme com as coisas dela, cada coisa, colocada simetricamente e organizadamente, desde seu material, a ela, o como ela massa a mão sobre o cabelo para tentar o manter alinhado... Eu nunca havia me preocupado com essas coisas... Talvez se eu tivesse feito isso. Eu teria algo, não seria como o arco-iris dela, mas eu teria, isso que importaria... Mas não... Eu era quebrada demais...
Se ela não gostasse ou não ligasse para mim, ela não teria feito nada. Esse episódio me fez abrir a cabeça e tentar entender as pessoas. Existem pessoas maldosas e pessoas intrometidas, pessoas maldosas destroem, te botam para baixo… Mas pessoas intrometidas apenas não vem o jeito de entrar, sabe, não são sensíveis, apenas entram e vão reparando nas coisas... A partir daí eu vi ela com esses olhos, e de garota chata e perfeita, ela foi para uma menina cheia de personalidade e intrometida... E a partir dai eu peguei um tanto dessa atitude para mim, e esse traço nasceu em minha personalidade... Esse carinho meio agressivo... Eu só não aprendi a ser organizada e cuidadosa até hoje, até porque a gente vai para a escolha para aprender o pior, não é mesmo?
Okey, não é todo mundo que se move através disso, desses empurrões, nesse morde, aponta e não assopra... Mas é o melhor... Ou pior jeito de expressar preocupação e cuidados...

Ou não?
...
Tai ai uma pessoa que eu gostaria de ver hoje em dia...
...
Eu só queria agradecer... de uma forma mais sincera...
(nem deve lembrar mais...)

2 comentários:

  1. Que texto lindo, quase chorei aqui :v eu não lembro de QUASE NADA da minha infância, sua memória deve ser muito boa né Cecy?

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    Respostas
    1. Minha memoria parece um jegue, quando é pra não ir, vai... Quando é pra ir, não vai... Chega a dar branco bem em cima da hora, sou aqueles tipo de pessoas que fica sofrendo com uma vergonha que passou em 2009, todos os dias, repassando aquele terrível segundo, e esquece para aonde ir bem na metade do caminho
      Isso é uma merda heheheheh

      Excluir

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